por Lúcia Sandler
Na cultura ocidental não se confere maior importância às
experiências internas que cada indivíduo vivencia com relação
a seu próprio corpo, e pouco valor se atribui à repercussão
das emoções sobre o organismo, seus efeitos e resultados
apesar de hoje em dia já sabermos, comprovado cientificamente -
que o tôus corporal influencia o tônus psíquico e vice-versa.
E ainda observamos que quase nada é ensinado às crianças
sobre anatomia e funções orgânicas ( rudimentos apenas)
sendo que, afinal, o corpo é sua primeira e definitiva morada e
o que as faz estarem vivas!
O corpo, a casa onde habitamos, um universo próprio, singular, único.
Creio que neste contexto a Eutonia, criado por Gerda Alexander ( Wuppertal, Alemanha, 1908), cumpre um importante papel, pois como forma de autoconhecimento proporciona ao indivíduo entrar progressivamente em contato com diversos estados de seu ser, promovendo a possibilidade de restauração da unidade psicofísica ou físico-psíquica.
A UNIDADE FÍSICO PSÍQUICA
Este capítulo é dedicado à compreensão da unidade físico-psíquica, embora ressaltando que o método da Eutonia baseia-se na relação com "o corporal".
A Eutonia apresenta-se como um enfoque profundo de processos e necessidades inerentes à natureza do ser humano.
Gerda Alexander criou um sistema de trabalho e reconhecimento do corpo profundamente alicerçado em estudos de anatomia, fisiologia, psicologia, em que a pedagogia exerce um papel rigoroso, claro e coerente.
A palavra Eutonia vem do grego: eu = harmonioso, bom e tonia = tônus tensão.
Foi adotada por Alexander em 1956 para designar a possibilidade de um estado tônico equilibrado - com isso ela se refere tanto ao tônus muscular quanto ao psíquico e ao neurovegetativo.
Costumo dizer que é muito difícil explicar ou escrever "o que é Eutonia" pois basicamente trata-se de um conhecimento que se realiza via linguagem corporal, mas podemos defini-la de certo modo dizendo que a Eutonia, como uma terapia pedagógica ou uma pedagogia terapêutica, de abordagem psicofísica abrange procedimentos de reeducação postural,reorganização neurológica em que a pessoa não é vista como paciente ( passivo) mas como agente (ativo) no seu processo de "encontro"com seu corpo = autoconhecimento, seja num trabalho objetivando o equilíbrio ou alinhamento da coluna vertebral,numa escoliose ou numa patologia como a hemiplegia ou ainda num caso de prolapso discal para citar um exemplo.
Gerda propôs que nunca se chame a pessoa que se submete à Eutonia de "paciente", e sim de "aluno".
A Eutonia se realiza em sessões regulares, que podem ser individuais ou em pequenos grupos, dependendo do caso e da pessoa, com duração média de uma hora, que em casos normais ( desconsiderando-se estados críticos e alguns de certa gravidade) devem se repetir uma vez por semana, e são constituídas de movimentos ( que por vezes são suaves ou até sutilíssimos), toques, propostas as mais variadas para estimular o sistema nervoso, estas com ação ou sem ação; em certos momentos são sugeridos procedimentos que vão desde o movimento mais simples envolvendo uma só articulação até incontáveis variantes com duas ou mais partes do corpo, incluido sempre os aspectos: tempo, ritmo, esforço, direção no espaço, observação da ação da gravidade, para citar alguns ;estes movimentos são quase sempre acompanhados pela atitude de "estar presente",de atenção àquilo que se faz no momento, como executa, como se sente, como percebe, como se sentiu. Um dos aspectos fundamentais na Eutonia refere-se ao respeito que o terapeuta/eutonista e o aluno devem obsevar em suas ações relativamente às suas limitações, ao tempo de "assimilação"de cada proposta, de cada movimento. Nas sessões individuais ou em grupo, o eutonista utiliza diversos objetos ou instrumentos que têm importante função; nem sempre os exercícios ou procedimentos são transmitidos oralmente, sendo que evita-se de toda forma "mostrar como fazer"para evitar a cópia e repetição pura e simples, e por vezes o eutonista não toca diretamente o corpo do aluno. Assim sendo, utilizará objetos tais como: bambus, pranchas de madeira, bolinhas de diversos tamanhos e texturas, almofadas, e outros objetos que podem ser vistos desempenhando a função do objeto transicional, no sentido descrito pelo psicanalista Donald Winnicott.
As propostas orais que são veiculadas durante as sessões/aulas devem ser simples, claras, diretas, sem o uso de expressões que busquem influenciar o modo de execução ou o estado psicológico do eutonizando, como o fazem os métodos de indução ao relaxamento ou aos estados eufóricos, passando por diferentes estados de ânimo. A atividade do eutonista em seu contato com o aluno deve ser a de "neutralidade", para usar um termo específico de Gerda Alexander, tanto no contato ( comunicação) oral como no visual ou no tátil. Sua presença deve ser receptiva, jamais impositiva ou aquela que vise de alguma maneira influenciar o aluno que desta forma estará apto a perceber que tem um campo livre durante a sessão para a ocorrência de quaisquer manifestações/sensações/percepções/comentários que possam emergir.
O despertar da sensibilidade traz como consequência fundamental a recuperação da imagem corporal, e o ato de vivenciar através da pele, mais especificamente através do tato, os espaços, as porções, os limites do próprio corpo, as proporções, as texturas, possibilita experimentar-se a forma dele externamente, o que veicula a auto-identificação. Este tipo de “exercício” permite o desenvolvimento da consciência corporal e a possibilidade da percepção do corpo como uma unidade.
“Observa-se sempre que falsas imagens corporais, conscientes ou semiconscientes perturbam as funções corporais” (G. Alexander) . A Eutonia representa uma nova forma de terapia a qual abre um campo absolutamente novo no tratamento de afecções neurológicas, hemiplegias, paraplegias, artroses, pólio, tratamento da coluna vertebral - enfim, está afeita a tudo aquilo que se refira ao conjunto ósteo-articulo-muscular, e não só, pois também pode ser utilizada nas enfermidades psicossomáticas; desde zero dia de vida a idades maisn avançadas do ser humano pode-se aplicar a Eutonia. Gerda diz que “e Eutonia concerne tanto ao sadio como ao doente, tanto ao esportista quanto ao dançarino, tanto aos que lidam com o físico quanto a todos os aspectos e atividades da vida”.
A formação profissional existia apenas na escola fundada por G. Alexander em Copenhage, Dinamarca; atualmente ocorre no Canadá, França, Suíça, Alemanha, Bélgica, Argentina e no Brasil (a primeira turma recém-formada em 1995) e tem a duração de quatro anos na qual o futuro eutonista deve passar todo o período pelas aulas práticas (ele será o eutonizando), além das matérias: anatomia, fisiologia, neurologia, psicologia, patologia, pedagogia da Eutonia, metodologia da Eutonia.
Os elementos que constituem a base da Eutonia, ou seja, seus princípios são:
- desenvolvimento da consciência óssea;
- sensibilidade da pele; - percepção do espaço interno;
- contato consciente; - “transporte”; e
- movimento eutônico.
As maneiras de chegarmos a esses objetivos são:
- Experiência de tato e contato;
- consciência da pele, espaço interno, espaço exterior;
- consciência da estrutura óssea, dimensão, direções;
- microestiramento/microdeslizamento;
- “transporte”;
- “repouser”; e
- estudos de movimento.
A Eutonia não é um método no sentido tradicional da palavra, mas oferece ao ser humano um novo approach com relação à vida. A maneira específica com a qual a Eutonia se apresenta realiza-se como um plano coerente, sendo um novo modo holístico para uma educação integral e um futuro desenvolvimento para o homem.
Costumo dizer que a Eutonia - para aqueles que a praticam ou já se submeteram a ela por qualquer razão -, torna-se um hábito de higiene da vida.
Termino esta pequena explanação a título de apresentação com uma oração que, acredito, dará grande significado ao que acabamos de ler:
“Touche: c’est par là que, très
simplement tout a commencé.
Chez les bébés, la peau prime tout.
Elle est le premier sens C’est elle qui sait”.
Frédéric Leboyer
para outras informações : lucia_sandler@hotmail.com